segunda-feira, 4 de abril de 2011

Caniço pensante

Nunca me senti tão sábio quando descobri em mim a eterna ignorância de um rato.










Não existe maior metafísica da qual a do não saber.
Essa do não saber que não sei
Porque saber, saber mesmo, quem sabe?

E esse tal de ceticismo
Se por ventura, eu, deveras indagar tudo
Cá estou eu duvidando da minha suposta crença em nada.
Pois se em  nada acredito, cá estou acreditando.

Levem-me daqui os dogmas, pois tais são como os ovos desonerados chocados por galinhas mortas.

Contesto ter desaprendido um dia, que dantes nos meus graúdos sete anos não me dava habilitação, mas me levara conhecer a tal da terra do nunca.
Tão sábio, sabia eu que as estrelas eram minhas, sabia que de algum modo se outrem de meu amor mais profundo partisse, estaria ele guiando-me em forma de estrela.
Desculpem-me astrônomos, cientistas e toda essa gente de branco, mas não conheço ninguém
chamado Saturno.

Que quero eu saber de morte?
Não sei. Se tu sabes, guarde-a contigo.
Porque da minha morte cuido eu.

Que quero eu saber de viver?
Ah, não sei. Se tu sabes, leve-a contigo.
Porque se penso eu no mistério da morte, que tempo terei eu
para pensar nas peripécias da vida?
Para vivê-las?

Mas não me venham aqui com seus meios e fins
Meus meios são feitos de fins, e meus fins justificam sim os meus meios.
Estes mesmos olhos do futuro
São os mesmos  olhos do presente
Jazem os mesmos do passado.

O que eu sei do mortal?
Que sei eu do imortal?
Que tudo isso só vai nos tornar mais solitários que já somos.
Indagar, averiguar, devassar...

quarta-feira, 23 de março de 2011

O rei, o bicho e o vício.

São as palavras que me devastam, o meu vício por elas, como charuto ao Burguês, ou cocaína ao traficante.

Eu, homem vil, vivo no subúrbio perseguindo virilhas e heroínas. Poetizando e titicando minhas noites com as putas, elas sempre tão adocicadas, abrindo suas pernas, mulheres, sempre arreganhando suas pernas para nós, homens, que fomos concebidos por elas,  escancaradas pernas ao nascer, e por estas mesmas escancaradas coxas roliças vamos falecer.


Eu que não uso essas mulheres, sou empregado, abusado, estrupado por todas, e não me esqueço dos quadris, e os seios que dantes eu segurava  arfando, e que tive a mazela de partir.


Sou eu um homem, que antes escravo sonhava com a liberdade, agora, entrego-as o tronco e o chicote.
Pudera eu espalhar meu coração, tal como posso espalhar meus espermas. Pois sempre deixo uma a chorar, e meus caminhos não são os de João e Maria, não marco com pedacinhos de pães. Vou e me perco.


 “És tu o homem que abre o zíper, e fecha o peito”. Esse sou eu, só não venha aqui, senhora, culpar-me de mentir. Pois há demônios em padres, e em todos os demônios têm um pouco de vigário.
Um dia da caça é outro do caçador, pois caçar dor é tudo que aprendi.  E deixo-as, para que fiquem com saudades. Tenho necessidade que penses em mim todos os santos e demoníacos dias.


Não sou do coração vasto. Vasto nem é meu coração. Suspeito eu que o tenha, pois gosto dos seios, não do peito delas, gozo por bundas, e não por suas conquistas de março. E o que me fascina é o cheiro que emana do ventre, e não é pelo discurso clichê de que vós podeis gerar vida, é pelo odor de ser macho e procurar reprodução, no dito, sexo.

 Sim, confesso, eu sou errado, tu és errada, nós, vós e eles, só sabemos sugar e sugar, até enchermos nossas barrigas e vomitar e defecar, depois mascaramos com a desculpa de nós sermos “humanos”.  Quem é humano aqui?

 Bactéria, macaco e homem, que evolução...

Mas cabe aqui, minha humilde confissão, eu-homem-Poros, astuto e engenhoso, cabe a mim o destino de se apaixonar por Penúria, que penar! E eu-homem-Eros, sou faminto e sedento de amor, invento mil astúcias para ser amado e satisfeito, ficando ora maltrapilho e semimorto, ora rico e cheio de vida.

sexta-feira, 4 de março de 2011

A última dança- O baile dos afogados



Insisti “bem me quer- mal me quer”, assim acabei com todas as rosas da floricultura de Maria.



Por onde tu andaste? Em que cama repousou? Quem é a dona destes sorrisos de rei? Óh, olhos-negros-abismos-profundos, voltastes?  Não, foi só uma visita breve, pois estavas a repousar no sofá, sentira falta deste cheiro que tanto reclamava de casa mofada, mal sabias tu que quem mofava não era a casa, éramos nós.

Procurei-te tanto, espalhei suas fotos em meio praças e ferrovias, gritei por ti, choraminguei nos ladrilhos, daquela rua que não, que não era minha e não tinha pedrinhas de brilhantes. E nem vi, nem vi meu amor passar.

Condenado por Colombina, Arlequim voejou, encontrou-se em outros contos  de fadas, e com marcas de dentes aprendeu o prazer que só gente sente. Padeceu sobre todas as camas, todas as casas, sobre telhados diferentes, sobre outros jardins, sentiu o cheiro de inúmeros lençóis, morreu de amor, matou por ele. Estava fantasiado, a descoberta do vinho, levou-te ao meu esquecimento.

Deixe-me dizer que virei teu anjo da guarda, já não sou mais teu amor de carne, tua bela moça de beijos e apertos, descobri-me um querubim, que tanto de amor por ti, criou asas para te proteger, não sou tua amada, sou guarda. Despenquei-me em silêncio, diferente dos outros, sou um anjo com espadas e escudos. Agora, só  olho-te de longe, guardo um manto, pois sei que depois das farras com as fadas, tu te sentes só, faz do seu corpo concha, e a dor toma de conta da alma, tens medo do escuro, tens medo que a própria alma venha o assombrar.

Daí, cá estou eu, cantando uma cantiga de ninar. Servindo de Morfeu para teus sonhos. Servindo de voz para o silêncio que te assustas. Servindo de ar para teus pulmões. Eu estou aqui. E agora tu podes dormir.
Amanheceu, tenho de ir... Ainda me pergunto: como seria se tu não resolvesses me dar um beijo na ponta do nariz e me fechar os olhos.

Fostes e não voltastes. Não voltastes.

E com os anéis no chão, convido-te para a última dança, peço-te em meio a Quimera.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Sophia, Clarice, Ana...



                                                                                           "Estou na caridade da evolução do meu ser. Quero ser menina, encontro-me mulher... 
Quero ser mulher, vejo-me menina..." Ferreira Gullar

Fazia sol-chuva, chuva-sol, era um frio abafado, não sei se pingos ou suor, talvez os dois... “Bom dia, Bom dia”, se eles pelo menos olhassem nos meus olhos, saberiam quão bons são os dias e me denunciariam por tráfico. E vou andando, tem uma pedra no meio do caminho, outra, outra e mais outra, Drummond tu só viste um micro-pedregulho-reluzante-inflámavel, desvio das pedras, mas acabo de perceber que despencam meteoros, a moça do tempo não avisou sobre isso.

Corri para entrar no bonde, corri tanto que minha alma saiu do meu corpo. Que alma? Uma lama podre e Cubana, vendida aos Americanos, que me cegaram com suas possibilidades do “Green card”, defecaram-me de possibilidades, ficando cada vez mais ricos sugando almas, assim, como a minha. Até no Ganges as fezes se acumulam, devido  o corpo lavado naquela água, Tietê  de esgotos, Ganges de almas. Um ótimo lugar para o suicídio, das bostas viemos, para bostas retornaremos.


Vejo um homem que dá o passo maior que a perna. Ele cai no bueiro e os ratos o devoram. O mundo está poluído, não falo de efeito estufa, falo do odor que nossos corpos-carniças exalam, deve ser por isso que meu olho arde tanto.


Entro no bonde, e na janela vejo meu reflexo, côncavo, convexo, corcovado? Ilusão, o que reflete não sou eu, é uma armadilha, mas também não é a garota do fantástico, sou apenas uma nota fiscal, e valo exatamente 1kilo de mortadela, que comprei ontem.


Olho para o lado de fora, vejo um casal, acho estranho classificar duas pessoas de “casal”. Eles estão se beijando, na África diriam que eles estão trocando almas, eles são bonitos, lindos de doer, sabe? Poderia descrever eles como... E agora, esfregando os olhos, vejo que eles se transformaram em dois vira-latas, no cio, um cheirando o rabo d’outro, ela lambe suas partes intimas, venerando-se, ele rosnando atrás do seu próprio rabo. Então vou concluir... Amar para mulher é lamber suas virilhas, enquanto, o macho-vira-lata rosna para seu próprio rabo. Tenho uma quota para sentimentalidade, deixo os cães, o amor, as virilhas. Cães que estranham o próprio rabo.


Olho para as pessoas que estão dentro do ônibus;  contas, trabalho, crianças, casamento, separação, sexo, dinheiro, Jesus-seja-louvado, brio, cana, frustrações, vazio, velhice, medo, misture tudo, uma batida de desesperança servida sem gelo. E isso viraria uma bela melodia de poesia, mais uma bela rima sobre púbis. Não existe nada de poético nas vermes que corroem as tripas do garoto.
Esfrego os meus olhos.  Sou jogada no bordel, isso não passa de um prostíbulo, nossas genitálias rendem o prato de cada dia, cada dia que nós damos hoje. Comam. Nossos Santos que  nos protejam da próstata, “crescei-vos  e espalhai-vos gonorréia”.


Fecho meus olhos... –Estava sonhando, tentando dormir.


-Quem é ela? Quem é ela? Q-u-e-m s-o-u e-u? Não tenho amigos imaginários, acho que eu sou um amigo imaginário. Abortei-me. Tenho treze filhos. Meu ventre é oco. Tenho medo de dormir. Tenho medo de acordar. Tenho uma goteira no meu quarto. Não tenho quarto?
Acordo... Acorda, vejo o livro que... De quem é esse livro?
Dizia, “Nada morre no vasto mundo, mas tudo assume aspectos novos e variados...” Responda-me, e esses malditos, benditos, gatos? Não sei. Só sei que essa brincadeira de alguém ter me transformado em humano é de mal grado, antes eu deveria ser um porco lindo e gordo, deve ser isso, uma bela primavera, um porco brincando no esterco e, agora um humano que despreza a lama.


Da próxima vez quero nascer relógio, e que esses humanos morram, faleçam de medo de mim. Quero que eles saibam que não podem abraçar o mundo com suas pernas paraliticas. Queria que eles soubessem que destruir menos não é deixar de destruir.


O menino que entra no ônibus vendendo bala: Três balas por um real. “Três balas por um real”... As pessoas compram as balas, talvez se sintam menos culpadas. “Comprando uma bala ganho um passaporte no paraíso”. O que eu faço? Imagino... O menino grande, segurando uma arma, grita: um real ou três balas na cabeça.


Desvio minha atenção, olho pelo vidro, uma placa 60 quilômetros, imagino... Uma placa “sua escolha”, que caos seria, acidentes, atropelamentos... Que caos seria. Uma placa dizendo quanto nós devemos correr. Somos uns anêmicos, correndo em sessenta quilômetros por hora.


Tenho nojo de mim, sim, enojo todo meu corpo. E sempre achei que quando você critica demais o calo do mundo, é quando você nunca tentou tirar o sapato para ver o tamanho do seu.


Cheguei ao meu ponto, desço do bonde, atravesso. De longe consigo ler uma placa no portão do colégio: Estão canceladas todas as aulas, por falta de água.
O que eu imagino? ...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

As chagas de Maria


Enquanto atravessava a porta sem olhar as cartas que estavam no chão. O ranger era de escárnio. Uma mulher sã e civilizada é assim que nas propagandas políticas imploravam meus votos. Uma mulher imaculada e honesta é assim que na igreja me vendem o paraíso, enquanto calada digo “amém”. Madalena, Afrodite, luxúria, gozo e fetiches pra que na cama a antífona seja o despir dos meus pecados mais pungentes.


Desculpem-me, mas ainda não sei gemer, votar e rezar  tudo ao mesmo tempo. Pra ser mulher tem que ser atriz, atriz antes de ser mulher.


Gotejavam, eram os últimos suspiros dos céus.


O mesmo cheiro de casa, as mesmas cadeiras, retratos de um matrimônio que racharam as paredes.
Roupas nas malas, o sapato guardado e algumas filosofias empíricas retiro do armário. Aprender com as experiências, não é mesmo?


Habeas- Corpus.


E o nome disso não é saudade.


A ela entrego tuas dores, teus sabores, teu cheiro de mel, seus dentes e bocas, sua alma em véu, seu corpo ao gozo. Deixo-te com ela que é cheia de vida, com cochas de harém e dançante  quadris de odalisca. Pois teu cheiro já é ela, e o cheiro dela é a foice na minha boca.


É dela a maçã que tua boca saliva. (Ponto) Strawberry Fields Forever, lembra?


 Ela que te cantou e encantou, embriagou-te nos seus lábios boêmios, excomungou  as marcas das minhas mãos no seu corpo, e te reacendeu Byron. Não nego que quando estava aqui, fazia-me sorrir e eu até venderia minha alma para ficar com isso, mas depois ia ao encontro dela e era lá que seu suor descia cálido, cortado em canivete. Foram lágrimas que paguei pros instantes que andei sorrindo.


Vértebra por vértebra se esfregando, escorpiões brincando de ferroar, o veneno excitante. Enquanto eu estava no banheiro olhando as rugas que criaram o nome de mulher. Minhas rugas têm nome. Não me sentia traída, afinal, eu era uma confidente das suas noites de amor. Eu estou olhando o meu umbigo, erro da sabedoria popular, olhar para o próprio umbigo dói muito.


Deixo nossos lençóis passados, nossa casa limpa, nossos papéis organizados, o jantar cozido, dotes domésticos dos rituais de mulher. Então você entrará com ela pela porta, derrubará nossos livros, porcos brincando na lama do esterco. Na intenção tola de ser multiplicada, acabei sendo subtraída.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O recitar de um clown

                                         

                                                                               Tão doce quão uma bicada de abelha.           
Levantou-se titubeando, como se as pernas quisessem permanecer sentadas. Os primeiros passos eram acústicos, anunciavam uma bela valsa das fidalgas madrugadas. A boca pintada de sorriso, sorriso ébrio e dissimulo, desses de humanos palhaços que teimam mascarar sorriso em um pobre coração arcado.

 Jazem aqui não borboletas no estomago, mas a arca de Noé inteira.


-  Não advogo por minha carne, que essa já não me vales nada, sou condenado por sentir, por ousar pintar um seio do corpo mais belo, da camponesa  mais bela que meus olhos já viram. Fui perseguido por amar, do amar que fui perseguido!


Juiz - O amor que tu defendes, diga-me,  aonde foi parar agora que tu precisas? 

  
-O amor se fantasia de gente, pois é de gente que se faz o amor.

Juiz- Estupor! Saberás tu que os humanos matarão e morrerão por amor. Que um dia esquecerão a fantasia de amar. E de soldados serão chamados os que de amor matar.


- Sei também que haverá as Julietas e os Romeus. E que esses de amor eterno matarão a morte, azar, sorte? E com seus versos criaram asas para transpor o muro, que ressuscitarão quando dois olhos, assim, miúdos, de dois seres se encontrarem, olhos o canal do coração... E deles, Julieta e Romeu viverão.


O amor... Amor é destes que tu ofereces às mãos, e ele, brejeiro, te pega os pés, joelhos, calcanhares e seios, leva tua alma e devolve mordida e sem anseio.
O amor não é cego... Como pensa os humanos... Amor tem visão de pássaro. Que de milhas distantes da tua amada, ainda poderá ver o rosto da criatura nas noites enluaradas.


 Juiz- Cala-te palhaço, tu és um lunático que vive de rima. Acha que conhece o amor, fale-me então qual é o sabor?


- De beijo tem o sabor de amor. 


Juiz- Vós que aqui estão, olhem, é notório que o palhaço não está são. Que acha que é de amor que vive o homem, e que demais inventa lamuria de contos, pois nem nos meus pontos uma trilogia dessas verossímeis nascerá. Que o amor é traiçoeiro finca à espada no peito de quem abre portas pro sujeito!


Condeno-te.


- Condenado já estou! Condenado de amor. Cada um que estais aqui descende de dois corpos, que mesmo por uma noite, se entrelaçaram e se consumaram no berço de Afrodite.
-Diga-me, Senhoras, quem de vós nunca mordeu os lençóis de tanto amor no peito? O amor é destes que te faz andar nas pontas dos pés nestas madrugadas infiéis, para não acordar o ser amado, que dorme ao lado. O amor te faz doer e te faz chorar, sim! Mas o amor,  oh te faz querer sorrir mesmo quando dos mais altos abismos cair. Os corajosos são os que amam! Os que amam são corajosos! Pois eu que amo, como todos que amam serão julgados. E os medrosos do amor, estarão atrás de uma mesa com seus ternos e suas muletas.  E esses sim, são os verdadeiros condenados!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Preparar, apontar... Frio.




Que as minhas pólvoras descansem.
Olhos de Kama Sutra
As pombas devoraram a paz
Esperança abriu as pernas,
[puta?


Bélico, belisca a bandeira.
Das nuvens, surgem mãos no sinal,
Empurrando a vida com a barriga,
Barriga cheia de fome.
Fechamos o acordo, falar tornou-se imoral.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Gregoriano


É de dar voltas sobre os pastos, e as folhagens secas, uma nostalgia tam profunda que ignota uma fonte que abastece nos tempos de estiagem.
É por ti ter, Senhora, que seguro o chapéu mesmo em furacão, que seja teu o meu coração. Naufragando nas terras secas. Vistes que nem sou poeta, não te encanto aos contos, não a beijo em poemas, não lamento te faltar tremas. Verbos que não sei conjugar. Por qual é de você  que degusto os olhos de tam belas que é, foges de mim aos burros como uma Hégira. Foges para quando sentir-me que sou seu venha querer ficar. Tem minha cabeça, São João Batista na sua bandeja, Salomé.
Mesmo que volte à seca do quinze e minhas terras estéreis fiquem, saibas que das minhas mãos tens meus pés.
Um encanto e me comove os olhos, um amor que grunhi,  cavalga e que foge aos padrões de lenha na fogueira, é uma queimada na selva dessas que explode os calcanhares, devoras árvores.
E como eu a encontrei?
Descia formosa, vaga como um caracol, um deslumbre que os zéfiros encostavam lentamente sobre teus cabelos de linhagem fina, devias tu cheirar alvorecer. Dessas manhãs fidalgas que exala  lente quente, uma virgindade na pele quase transluziu, tornei-me cravo, girassol, lírios para te contemplar, para te igualar, te guardar. Tudo por um balanço de quadris que Afrodite nenhuma faria igual. Tu conseguias  a arte de pausar o balanço das árvores, que inferno é amar demais, pegarei meu cavalo e sorrindo encontrarei meus pecados. Se tu ficaste, fincaste.
Finca tua bela mão dentro do meu corpo, arrancas meu coração e grita como se descobrisse terras, terras nunca outrora descobertas, descobridora! Iça tua espada e batize-me com teu nome de Santa.
Quero me prender, quero me libertar, quero voar no oceano! Quero o prazer dos prazeres, sentir doce e salgado na mesma carne. Isso tudo me arde os ossos, quebra-me ao meio, imaginação impiedosa de um pobre cangaceiro ateu.
  Deus que fizeste essa mulher da minha costela. Agora, me colocastes na sua frente para que eu pudesse recuperar o osso perdido. Fazer-me inteiro, homem completo. Digo-te que já não tens volta, devolva-me o que eu te dei.
Moça deixa esse teu céu um pouco de lado, essas tuas nuvens que não a deixa se ferir, deixa de querer ser tão imaculada, dá-me sua mão que no meu cavalo cabe mais um.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Conversa de Judas.

Pergunto-me como chego ao irreal do mundo, quando os escrevo os escravos. Como chego ao lugar? Simples, não o chego.

Então ele segurou meu coração, olhou como se fosse chorar, era quente? Disse-me: É de ferro, duro. Como carregas isso? Isso? Pensei, não o disse, que sejas isso o produtor de massa sentimental que fazes tu viver este sonho, mazelo.


Sinto-me leitora e personagem do contexto. Vou me afundando no pecado alheio, como se fosse o meu, dor e felicidade, pensamento, ébrio, devoção, sentimentos que não padecem quando cremados.


Usas o salto ao contrário. Fere teu pé. Melhor do que usar no peito que fere coração. Sangrarás do mesmo jeito, morrerás do mesmo sangue escasso.


Hamlet? Consumimos esse amor inventado nos  livros, filmes, puros, impuros, mal e bem acabados, sonoplastia que absorve toda nossa capacidade de amar em vida. Amamos a arte, machucamos por ela.


Falastes de pé, e descrevestes mãos? Como se meus pés fossem minhas mãos. E não o é? Não o são. Singular, nunca te achei plural. Dores? Não, dor. O singular é egoísta, sabe? Você é uma perfeita singular onde não cabem “s’s”. Suspeitas do meu acolhimento? Por qual suspeitaria?


A decoração do restaurante era obscura, o frio vinha e voltava conforme o vento. Zéfiros bailavam, bailavam com tanta intensidade que ascendia uma neblina, poeira dos zéfiros.


Desenhastes meu coração quando anunciou “decifra-me...” Acho uma tolice, não sou obrigado a decifrar-te, como se Vieira palestrastes um sermão.  Asneiras. Devora-me? ......................


Duas opções; estrupa-me  ou ejaculo-te.


Já está aqui dentro. Que suco gástrico. É banquete. Asneiras. Por quais Asneiras? Não pergunte. Brás Cubas. Quincas Borba. Queres mendigar? Queres o adultério? ....... Não posso ser Virgília? Não sou Brás.


Abraçamos nossos umbigos, companheiros ternos de eternos. Perdemos metade dele e ele continua conosco, olhe pro seu umbigo, não, não é egoísmo.


Aí, tu vendes almas? Não, vendo flores. Então, aí tu vendes almas. Tenho uma floricultura. Uma cultura de flores? Pareces que não mo entende.  Entendo. Contrario-te. Silêncio? Não preciso o contrariar, teus olhos já o fazem por mim.  Não nego.

Aí está um pouco de Arlequim,  Pierrot, Colombina. São sentimentos, leitor.


Eu poderia matar-te hoje. Não o faz por quê? Não viveria sem teu amor. E sem mim? Tu, cadáver ainda teria amor? Por ti? Responda-me. Rio Lethe acabaria comigo. Esquecer-me-ia? Nasce comigo?


Nasce comigo?


Depois da morte, uma promessa, nasce comigo?
Reencarna no meu corpo? Vou engolindo terras dentro do meu caixão.
Suspeito que nascer e morrer é perfeitamente igual. Não te lembras nada antes da vida, não te lembras nada depois da morte.


O céu está lindo hoje. Escárnio. Uma Fermata. O Universo? A poesia. Ela morre. E como morre. Então? Morre, mas vive. Não entendo. Não me decifras.


A matéria física, sólida, derrama, evapora-se. Posso até pegar o ar com os dedos.


Como tu te chamas? Ambiguidade. Não entendo. Vou-me embora. Já? Espere. Sim? Como te encontro. Não encontra. Adeus? Sempre...

domingo, 19 de dezembro de 2010

Xadrez

                                                            Pelo oxigênio que fere os pulmões.
Jazem doze dias que não escrevo e tudo que eu posso oferecer é um circo de palavras rolantes e extrínsecas e, aquele CD arranhado que repete o pior refrão, como foi meu dia hoje?
É preciso coerência de tema para escrever sobre seus sentimentos? Machucar em nome da arte, isso é válido? Falar sobre morte na literatura não vai te fazer morrer de verdade. Quando se pratica homicídio se morre duas vezes, alma e corpo. Não é um depressivo que vos fala, nem teorias aleatórias de uma  psicologia behaviorista  barata, culpo minha mão que de palhaça tateia cortantes palavras sobre meu corpo. Não se manda nos cinco sentidos, que fique bem claro.
Apago e escrevo apago e escrevo. Uma fermata de dores e delírios, não ficou bom, bom pra quem? Saberia tu analisar os sentimentos alheios? Tu  terias cicatrizante analises? Não discorde comigo leitor, nem sempre discordar o fará ter personalidade, discordas quando teu sentimento ferir o meu, e deixe que eu mesma te ofereça minhas mãos, não há algo mais perigoso e funesto que elas.
Sei que à maioria aqui prefere ouvir de mim contos, contos de penúria ou vezequando de um amor puro e universal. Contos, porque raios-X nenhum detecta enfermidade ou doenças nos ossos, os humanos não aceitam ver pelos próprios olhos suas almas podres, sabonetes são usados para disfarçar o odor do corpo virgem. Vivemos na sociedade do brio, que o amor próprio lubrifica os olhos. Morreremos, pois não sabemos diferenciar problemas cardíacos com os sentimentos de paixão, deixes tu leitor de se apaixonar por seus pés, olhar para o lado é a solução para não morrer atropelado.
Não seria mais fácil se quando quiséssemos entrar em casa, chorássemos, latíssemos, arranhássemos nossas patas na porta de madeira, no entanto fazemos de conta que não importa, o nosso orgulho é um ponto do alfinete. Só se morre de orgulho se você o engolir. Somos tão parecidos com os nômades, somos nômades; chegamos à  um local rico em verdes, natureza suntuosa, lagos imaculados, absorvemos tudo, nos  lambuzamos, e depois? Fugimos e  nos refugiamos em outro local, com outro lago, frutas, peixes e vida. Nunca vamos aprender a cuidar da terra e fixar nossos pés nela. Fomos criados assim, assim vamos criar, ou vamos destruir.
Quantos corpos você já usou para se salvar? Quantas naturezas você sugou, como hirudínea? E quantos bebês você desmamou antes dos dois anos? É que o passado e o presente são interligados sim, braço esquerdo, braço direito, o coração os une, veias os une, não feche seus olhos para isso, leitor.
Estratagemas.

sábado, 20 de novembro de 2010

Por qual não vale um conto.

Contrair emoção, regatar os amores ilimitados de mendigos que veze quando precisam de pão e leite. Vou contraindo minhas unhas dobrando os dedos como se fosse socar alguém com as duas mãos, às veias do pulso com a força que fiz quase pularam para fora, minhas unhas  perfuram a  parte central das minhas mãos, no local que  ficam linhas da vida. Tentei apagar meu destino, molde do destino, o que queira chamar. Fechei minhas pálpebras, meus seios quentes e maternais jorraram leite, leite de um feto abortado, jorrando à  falta da fome. Corri a árdua travessia da porta para o sofá, que me fez relembrar uma navegante na maré vermelha, talvez seja aquelas toxinas liberadas, fico pensando, tudo tende a sangrar, e tudo que sangra existe um  culpado por tal ato. Proliferação, planctônicas. Leite materno. Ciclo embrionário, morto pelo enforcamento de um cordão umbilical.
Morte? Fascínio de escritores, musa da filosofia, falamos de morte, porque amor é limitado. E porque todos nós temos sede de existência, sede de amor passa com água. Sede de vida? Sede de vida não passa, temos medo da morte só depois que ganhamos à vida. Mas, nascemos de morte. Sei que é uma idéia assustadora. Tenho insetos no meu cérebro, gafanhotos e vaga lumes. Sou uma mulher que retorna tragicamente para vida, ou, sou uma mulher substituta, substituo dores de homens pelo fascínio do meu corpo, substituo suas frustrações por anarquismo psicológico, vou me substituindo, condensando, sublimando. Porque como a cobra, depois de certo tempo com o mesmo couro, ela começa a feder.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Abate

     No fim da estrada, sempre nos deparamos com decisões, entre desligar ou não o oxigênio. Viste que a galinha, essa nasceu com o destino entrelaçado  na morte. Viste que a morte, só a morte, é uma maneira de dormir sem ser incomodado.
Já é sandice achar que galinha tem alma, então, não existe nada mais perto da morte que uma galinha.
     A destreza com que ela vai andando pelo “corredor”, as mãos que a sufoca das mesmas delicia-se dela.
Emendando seus pés finos para não tentar voar, outra utopia de galinha.
Cravando-lhe a mão no pescoço, ela se debate, se contorce, late, grunhi, surta e entorpece, zangando-se. O cérebro da galinha, liberando um tipo de endorfina, que não é dor fina, solta a língua para fora. Espírito de sobrevivência. E depois de tantos séculos, burras galinhas não criaram nenhum tipo de aptidão para se salvar da morte.
     Abastada, incompleta, incrédula, servida como mingau.
Já nasce suicida, só por nascer galinha, e como um ser de tal ignorância não tem o conhecimento de sua própria morte.
Joga-se o milho, limpa-se o celeiro, choca-se  ovos, cisca suas dores de galinha apagando a crucificação no terreiro baldio, deita-se com o galo, divide-o com outras marcadas pelo mesmo destino e talvez, chore.
Aniquilação absoluta, primeiro retira a camada de penas, deixando-a nua, porque ela é pura vontade de vida, água quente, borbulhando, joga-se em cima do cadáver, deixando-o limpo, purificando a alma de quem aceitou a bigamia, mutilando-a corte por corte, dividindo os pedaços para serem servidos com ou sem farinha.
   É quase escasso o que se imacula, nem é atrito, talvez os narcóticos neurolépticos salvem-na.


  “Edite, bibite, post mortem nulla voluptas”.



*"Comei, bebei, depois da morte não há prazer".

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Pinhos


De longe vi o verde, plantado como cacto
Esparramei a correr, montagem, fostes uma miragem
Mas o verde  já estava sobre o talo
Comia meu cérebro e fazia pose à margem.

 Doía o verde do Pinho
O Pinho doía de verde.
Talvez  porque a terra é seca
O Pinho doía de sede.


O pinho irritado teima,
Como o vinho teima em ter cor
Vi que debaixo do vinho
Tinha pinho de um leitor.

És Pinhos
Es pinhos
Espinhos.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Glicose



É  de tal ingenuidade  a vontade de escrever do homem, e a minha também, mostrando-se despido e frágil para qualquer um que tenha olhos. Derramando  sobre o leitor uma podridão dos seus segredos pungentes,  fazendo pose, divulgando suas formas encurvas de ser humano, que se ilude com o próprio veneno criado. Que é escravizado, açoitado, assombrado por sua própria vontade de comer letras.

Comecei a escrever tão depressa que talvez meus pensamentos não consigam acompanhar minhas cartas. Minha caligrafia está feia quase ilegível, eu estou defronte a uma vela que ilumina o papel deixando-o de uma cor amarelada, estou vazia de uma forma como se tivesse provocado todos os órgãos do meu corpo, não sei como, estou viva. Viva?Talvez só esteja dormente, estou dormente, todo meu corpo, junto com minha alma. A vela está derretendo como se estivesse chorando, as lágrimas dela queimam, queimam por determinados segundos, depois solidificam na pele e gruda, é uma dor confortável  que dura pouco tempo, eu poderia passar minha vida pingando lágrimas de vela sobre  meu corpo. Está tudo escuro e eu peço baixo para poder me camuflar no bruno dessa noite, agora meu ser submete-se a uma presença estranha. Talvez ele não me veja no escuro, e vá embora levando suas dores que não são poucas e ele insiste em  mostrar, em cavar isso em minhas córneas, como uma aplicação de anestesia. Eu fico zonza e ele pode deleitar-se do meu sangue, sendo único alimento que o satisfaz, e de tantas vezes ao dia o deixei saciar, que acabei ficando anêmica.  Meu sangue agora é tão escasso que em sua próxima refeição me levará ao túmulo.
    Eu que por muitas vezes pertenci à hecatombe, e suicidei-me, hoje sou covarde e venero minha covardia como um gótico veneraria o sepulcro. Tenho granitos espalhados por toda minha alcova e não posso mexer-me muito, mumificação e os esparadrapos talvez cubra minhas feridas abertas, que não conhecem o termo “cicatrizar”. Leio pequenos versículos dos meus pensamentos, pois ao contrário de outros,  meus pensamentos não são feitos de imagens e sim de letras, elas voejam e embaralham-se e eu fico decifrando, não como um caça palavra, porque é  à palavra que me caça. Vejo às letras e nelas aparecem  hematomas, não entendo, franzo minhas sobrancelhas, mas continuo sem entender. Talvez esteja sonhando, belisco-me, não sinto, agora parece mais confuso, estou dormindo?Acorde, acorde, nada, passo as unhas fortemente pela minha epiderme, continuo sem sentir, lembro-me que estou dormente, minha alma e meu corpo que é minha carne, então comecei a contorcer meu esqueleto tentando fazer com que um osso quebre, não sinto, não sinto, quem foi o assassino?Não, não eu estou viva. E vejo, é hexágono, hexágono de 32 lados. Acordei.  Agora pareço realmente sonhando, estou em um bloco de carnaval e às pessoas gritam e jogam confetes, algumas tropicam ,jogam seus ombros contra os meus. O som ecoa por toda parte, ecoa por todos os corpos, e todos cantam uma música diferente. Eu tenho a leve sensação de hibernar, não sei como, mas é essa a sensação que estou sentindo, uma era glacial e os sorrisos começam a congelar-se, à mulata que requebrava os quadris, cessa em uma posição de estátua grega, e o homem do pandeiro ao seu lado. E tudo se torna hirto, uma desordem imóvel. E quando alguém vem me tocar, eu acordo e  grito. Acho que acordei todo mundo, verifico e vejo que estão todos dormindo, talvez tenha gritado no sonho e acordei com o barulho do próprio. Nada que esteja sendo lido e escrito nesse momento vai  ter sentido, pois é difícil saber se ainda estou no pesadelo, não sei se o que estou escrevendo vai virar concreto, ou amanhã vou procurar esse papel e descobrir minhas letras fantasiosas, que tudo não passou de um sonho. É uma sensação de está  abortando seu próprio corpo. De que nada te pertencesse, ou de que tudo passa a te pertencer, você fica lubrificado e começa a se debater em uma sala branca.
E meu devaneio é ser. Então, quero por essa noite tomar posse do meu cordão umbilical, quero à  graça de ser um embrião, de ser carregada na barriga de alguém. De poder chutar quando tenho vontade, e receber um carinho por isso, e que a pessoa sorria porque é um sinal de vida. Quero esperar o alimento chegar depois de mastigado para que eu não engasgue. Espero alguém que me ame sem conhecer meu rosto, que se sinta feliz quando eu a fizer enjoar e vomitar 3 vezes ao dia, e que não reclame disso mais uma vez, e  se sinta feliz. Quero ser esperado pelo leite que me alimentará durante três anos e que eu possa sentir-me íntima dos seus seios, até que comece andar sozinha. E quando eu  estiver já sendo um incomodo que aconteça o parto, mas que com isso ela não me tire da sua vida, mas só exista à separação da barriga.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Navegar poesias



És minha
Vontade de rimar
Rimo tráfego aéreo
Com tempestades em alto mar.


Feudo

    Cuidar do corpo nunca foi tão preciso e precioso, amontoamos perfumes franceses e esquecemos-nos de banhar diariamente nossas almas. Importamos maquiagens e como reboco cimentado desenhamos sorrisos de 24 horas e escondemos a idade.

Criamos deformidades!

     Malhamos até ficar com o corpo esculpido criando montanhas nos braços. Esquecemos de colocar nosso cérebro em uma esteira.
            Um corpo esculpido um cérebro entupido.

As modelos que passam na passarela não vendem só a roupa da grife italiana, vendem remédios, inibidores de fome e shakes diets, desfilam com seus vestidos em forma de comprimidos, última moda na UTI.
 
    Comparar um garoto pobre do Zimbábue, e uma garota rica de Milão. Os dois pesam o mesmo. Só que uma vomita. E outro come o vomito do chão.

Nunca foi tão difícil distinguir um nariz que respira de um  que “aspira”. E nunca foi tão fácil concordar com a corda que vai nos enforcar.

                  Temos escravizado nosso corpo para garantir uma silhueta no fim do dia.
Corrigimos falhas de ter nascido humanos, porque essas só são aceitas no caráter, falhas no corpo o espelho reflete.
              E no final reverenciamos o nosso Senhor bisturi de cada dia que nos tira hoje.

sábado, 18 de setembro de 2010

Cantiga de despindo-se.





Eis cá meu arlequim
Devoravas pétalas do meu jasmim

Foi-se embora cantando aos prantos
Eu,regozijando,regozijando.

Da tua pele senti  o sabor do amor
E quando me tocava ao corpo fervia a vapor.

Da minh’alma tu te alimentaste
Agora cospes, e pede-me chaves.

Tu que dormias sobre meu corpo nu
Cegara teus olhos aquele belo mar azul?

Meu broto arlequim
Porque disseras que morrias por mim?

Cá eu ébria pelo vinho teu
Agora vivo sóbria, faço-me ateu.

Meus lábios que dantes eram molhados
Vivem cá agora em sertões castigados.

    Aflita, fiz gestos que parecem gritos
E o que voltou foi o eco da minha voz, maldito.

O hálito da sua boca ainda esquenta minhas veias
Como os pés no inverno, precisam daquelas meias.


Nos seus cabelos, estou trançada
Calve-se, e eu seguirei estrada.


Este peito que se acendia
Hoje vive a uma vela vadia


Não se lembras do meu vestido vermelho?
Que tu nas noites, despia ao desespero


Da gargalhada
Fez-se pranto.
Do teu amor
Um canto.
Das marcas
Cascas.
Das asas
Harpas.

Eu fui perguntar para os bêbados na rua
Onde estarão tuas doces formas cruas?


Quem sabe à noite
O tronco não tenha açoite.


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sem verba


    Veja!Extra!Caras!Grita o menino com o jornal na mão, vendendo informação com a barriga seca de pão. As pessoas que passam, já não sabem ler, e mesmo que soubessem não perderiam seu tempo, lindo, tempo. Não existe tempo para ler nem para escrever, como está seu tempo?
"Nublado". E por falar em chuva, vou pegar minhas roupas no varal. Na volta com as roupas na mão, vi que o sol já estava voltando. Quem sabe se eu lesse o jornal...
Olhando tudo em minha volta,vi,veja a organização construída sobre o alicerce da monstruosa desordem. Veja o relógio.
Tic-tac. Tic-toc.
Faz seu trabalho. Não pode parar. Então o homem cria à bateria, para a bateria.
Servos ao relógio. Quem falou que à ditadura acabou?
Vamos lá, cronometrados para sermos felizes.
Teoria do caos?Da relatividade?Não, essa é a teoria dos ponteiros.
Donde o maior domina o menor, e os segundos pintam a cara protestando.
24, vinte e quatro horas, para sentir o orgasmo fervilhar as veias e depois viramos e dormimos.
8 horas é o ideal, dizem os “espécie-a-listas”, oito horas nos dão para recarregar as frustrações de soldados em guerra civil, ou quem sabe tudo isso não passa de um canil. E para um bom sonhador oito horas não bastam.
06h00minhocas. Alarme grita, sorriso é alegria.
Ao acordar, viramos espermatozóides killers, e tudo se relaciona em fecundar um óvulo, correr, correr, fecundar. E se algo der errado?Estima-se que 60% da população sofrem de aborto espontâneo.


   Repetir o inquérito, reformar a casa, redesenhar a fossa.


   E quem sabe uma autogamia, reviver, viver, ver, vi. Não, cegos por uma poluição já não se vê mais nada. Só que o Sir. Hipocre dizia: que prefere se hospedar na UTI(Unidade de temor indeterminável)a viver na epidemia de cegueira. E quem sabe o veterinário, (médico)venha visitá-lo hoje.
A bolsa caiu. Cuidado com o ladrão. Vamos comprar!Comprar!O mercado de 24 horas está aberto. Que coincidência. Nua, pousando a moscas e com a validade violada tem algo que nos chama atenção, o presunto chama-se verdade porque “saúde” este já existe. Nós compramos e depois revendemos com 50% de desconto, parcelamos a felicidade em 12 meses, porque dívida é felicidade. Então, que ela possa durar 2 semestres.
Somos orientados a vencer em uma disputa de anônimos. Ou, você sabe quem está sentado à sua direita?
      É nessa arraia-miúda que criamos nossas proles, que se tornarão grandes ateus, a seus, não a nossos.Vou servir meu chá das quatro e comemorar o bélico perdido.
Porque “faça amor não faça guerra”. Oh, Marcuse eles não sabem o que fazem.
Desculpa, não ressuscitarei no terceiro dia.

domingo, 5 de setembro de 2010

Eva



Gosto de maça carmesim
De um lírio branco cai à cor do crucificado
De joelhos pedes perdão defronte ao calvário.

      A mulher grita
     És pecadora
    És adúltera
    És expulsa
    És mulher.

Na carne cicatrizes de desejos reprovados
Camuflam-se em bruma alma
Cale-se, perante teu Deus!
Ajoelhe-se, defronte ao Diabo.
E o ventre jorra sangue
O sangue do suicídio
Entre o cárcere do jardim florido.
Pecas, para sentir o sabor da faca enfiada ao espasmo.


   És mulher sem ventre
   És sem alma
  És fujona
  Escrava.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Passos do Sertão

No sertão os pés descalços, pisam
No chão quente.
Pobre coração
Pulsa frio.
O lampião dá-se    
Adeus.
O cavaco chora.
Em comboio, chora.   
A mulher segurando no peito
Esperando o coração acalentar.