quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

As chagas de Maria


Enquanto atravessava a porta sem olhar as cartas que estavam no chão. O ranger era de escárnio. Uma mulher sã e civilizada é assim que nas propagandas políticas imploravam meus votos. Uma mulher imaculada e honesta é assim que na igreja me vendem o paraíso, enquanto calada digo “amém”. Madalena, Afrodite, luxúria, gozo e fetiches pra que na cama a antífona seja o despir dos meus pecados mais pungentes.


Desculpem-me, mas ainda não sei gemer, votar e rezar  tudo ao mesmo tempo. Pra ser mulher tem que ser atriz, atriz antes de ser mulher.


Gotejavam, eram os últimos suspiros dos céus.


O mesmo cheiro de casa, as mesmas cadeiras, retratos de um matrimônio que racharam as paredes.
Roupas nas malas, o sapato guardado e algumas filosofias empíricas retiro do armário. Aprender com as experiências, não é mesmo?


Habeas- Corpus.


E o nome disso não é saudade.


A ela entrego tuas dores, teus sabores, teu cheiro de mel, seus dentes e bocas, sua alma em véu, seu corpo ao gozo. Deixo-te com ela que é cheia de vida, com cochas de harém e dançante  quadris de odalisca. Pois teu cheiro já é ela, e o cheiro dela é a foice na minha boca.


É dela a maçã que tua boca saliva. (Ponto) Strawberry Fields Forever, lembra?


 Ela que te cantou e encantou, embriagou-te nos seus lábios boêmios, excomungou  as marcas das minhas mãos no seu corpo, e te reacendeu Byron. Não nego que quando estava aqui, fazia-me sorrir e eu até venderia minha alma para ficar com isso, mas depois ia ao encontro dela e era lá que seu suor descia cálido, cortado em canivete. Foram lágrimas que paguei pros instantes que andei sorrindo.


Vértebra por vértebra se esfregando, escorpiões brincando de ferroar, o veneno excitante. Enquanto eu estava no banheiro olhando as rugas que criaram o nome de mulher. Minhas rugas têm nome. Não me sentia traída, afinal, eu era uma confidente das suas noites de amor. Eu estou olhando o meu umbigo, erro da sabedoria popular, olhar para o próprio umbigo dói muito.


Deixo nossos lençóis passados, nossa casa limpa, nossos papéis organizados, o jantar cozido, dotes domésticos dos rituais de mulher. Então você entrará com ela pela porta, derrubará nossos livros, porcos brincando na lama do esterco. Na intenção tola de ser multiplicada, acabei sendo subtraída.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O recitar de um clown

                                         

                                                                               Tão doce quão uma bicada de abelha.           
Levantou-se titubeando, como se as pernas quisessem permanecer sentadas. Os primeiros passos eram acústicos, anunciavam uma bela valsa das fidalgas madrugadas. A boca pintada de sorriso, sorriso ébrio e dissimulo, desses de humanos palhaços que teimam mascarar sorriso em um pobre coração arcado.

 Jazem aqui não borboletas no estomago, mas a arca de Noé inteira.


-  Não advogo por minha carne, que essa já não me vales nada, sou condenado por sentir, por ousar pintar um seio do corpo mais belo, da camponesa  mais bela que meus olhos já viram. Fui perseguido por amar, do amar que fui perseguido!


Juiz - O amor que tu defendes, diga-me,  aonde foi parar agora que tu precisas? 

  
-O amor se fantasia de gente, pois é de gente que se faz o amor.

Juiz- Estupor! Saberás tu que os humanos matarão e morrerão por amor. Que um dia esquecerão a fantasia de amar. E de soldados serão chamados os que de amor matar.


- Sei também que haverá as Julietas e os Romeus. E que esses de amor eterno matarão a morte, azar, sorte? E com seus versos criaram asas para transpor o muro, que ressuscitarão quando dois olhos, assim, miúdos, de dois seres se encontrarem, olhos o canal do coração... E deles, Julieta e Romeu viverão.


O amor... Amor é destes que tu ofereces às mãos, e ele, brejeiro, te pega os pés, joelhos, calcanhares e seios, leva tua alma e devolve mordida e sem anseio.
O amor não é cego... Como pensa os humanos... Amor tem visão de pássaro. Que de milhas distantes da tua amada, ainda poderá ver o rosto da criatura nas noites enluaradas.


 Juiz- Cala-te palhaço, tu és um lunático que vive de rima. Acha que conhece o amor, fale-me então qual é o sabor?


- De beijo tem o sabor de amor. 


Juiz- Vós que aqui estão, olhem, é notório que o palhaço não está são. Que acha que é de amor que vive o homem, e que demais inventa lamuria de contos, pois nem nos meus pontos uma trilogia dessas verossímeis nascerá. Que o amor é traiçoeiro finca à espada no peito de quem abre portas pro sujeito!


Condeno-te.


- Condenado já estou! Condenado de amor. Cada um que estais aqui descende de dois corpos, que mesmo por uma noite, se entrelaçaram e se consumaram no berço de Afrodite.
-Diga-me, Senhoras, quem de vós nunca mordeu os lençóis de tanto amor no peito? O amor é destes que te faz andar nas pontas dos pés nestas madrugadas infiéis, para não acordar o ser amado, que dorme ao lado. O amor te faz doer e te faz chorar, sim! Mas o amor,  oh te faz querer sorrir mesmo quando dos mais altos abismos cair. Os corajosos são os que amam! Os que amam são corajosos! Pois eu que amo, como todos que amam serão julgados. E os medrosos do amor, estarão atrás de uma mesa com seus ternos e suas muletas.  E esses sim, são os verdadeiros condenados!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Preparar, apontar... Frio.




Que as minhas pólvoras descansem.
Olhos de Kama Sutra
As pombas devoraram a paz
Esperança abriu as pernas,
[puta?


Bélico, belisca a bandeira.
Das nuvens, surgem mãos no sinal,
Empurrando a vida com a barriga,
Barriga cheia de fome.
Fechamos o acordo, falar tornou-se imoral.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Gregoriano


É de dar voltas sobre os pastos, e as folhagens secas, uma nostalgia tam profunda que ignota uma fonte que abastece nos tempos de estiagem.
É por ti ter, Senhora, que seguro o chapéu mesmo em furacão, que seja teu o meu coração. Naufragando nas terras secas. Vistes que nem sou poeta, não te encanto aos contos, não a beijo em poemas, não lamento te faltar tremas. Verbos que não sei conjugar. Por qual é de você  que degusto os olhos de tam belas que é, foges de mim aos burros como uma Hégira. Foges para quando sentir-me que sou seu venha querer ficar. Tem minha cabeça, São João Batista na sua bandeja, Salomé.
Mesmo que volte à seca do quinze e minhas terras estéreis fiquem, saibas que das minhas mãos tens meus pés.
Um encanto e me comove os olhos, um amor que grunhi,  cavalga e que foge aos padrões de lenha na fogueira, é uma queimada na selva dessas que explode os calcanhares, devoras árvores.
E como eu a encontrei?
Descia formosa, vaga como um caracol, um deslumbre que os zéfiros encostavam lentamente sobre teus cabelos de linhagem fina, devias tu cheirar alvorecer. Dessas manhãs fidalgas que exala  lente quente, uma virgindade na pele quase transluziu, tornei-me cravo, girassol, lírios para te contemplar, para te igualar, te guardar. Tudo por um balanço de quadris que Afrodite nenhuma faria igual. Tu conseguias  a arte de pausar o balanço das árvores, que inferno é amar demais, pegarei meu cavalo e sorrindo encontrarei meus pecados. Se tu ficaste, fincaste.
Finca tua bela mão dentro do meu corpo, arrancas meu coração e grita como se descobrisse terras, terras nunca outrora descobertas, descobridora! Iça tua espada e batize-me com teu nome de Santa.
Quero me prender, quero me libertar, quero voar no oceano! Quero o prazer dos prazeres, sentir doce e salgado na mesma carne. Isso tudo me arde os ossos, quebra-me ao meio, imaginação impiedosa de um pobre cangaceiro ateu.
  Deus que fizeste essa mulher da minha costela. Agora, me colocastes na sua frente para que eu pudesse recuperar o osso perdido. Fazer-me inteiro, homem completo. Digo-te que já não tens volta, devolva-me o que eu te dei.
Moça deixa esse teu céu um pouco de lado, essas tuas nuvens que não a deixa se ferir, deixa de querer ser tão imaculada, dá-me sua mão que no meu cavalo cabe mais um.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Conversa de Judas.

Pergunto-me como chego ao irreal do mundo, quando os escrevo os escravos. Como chego ao lugar? Simples, não o chego.

Então ele segurou meu coração, olhou como se fosse chorar, era quente? Disse-me: É de ferro, duro. Como carregas isso? Isso? Pensei, não o disse, que sejas isso o produtor de massa sentimental que fazes tu viver este sonho, mazelo.


Sinto-me leitora e personagem do contexto. Vou me afundando no pecado alheio, como se fosse o meu, dor e felicidade, pensamento, ébrio, devoção, sentimentos que não padecem quando cremados.


Usas o salto ao contrário. Fere teu pé. Melhor do que usar no peito que fere coração. Sangrarás do mesmo jeito, morrerás do mesmo sangue escasso.


Hamlet? Consumimos esse amor inventado nos  livros, filmes, puros, impuros, mal e bem acabados, sonoplastia que absorve toda nossa capacidade de amar em vida. Amamos a arte, machucamos por ela.


Falastes de pé, e descrevestes mãos? Como se meus pés fossem minhas mãos. E não o é? Não o são. Singular, nunca te achei plural. Dores? Não, dor. O singular é egoísta, sabe? Você é uma perfeita singular onde não cabem “s’s”. Suspeitas do meu acolhimento? Por qual suspeitaria?


A decoração do restaurante era obscura, o frio vinha e voltava conforme o vento. Zéfiros bailavam, bailavam com tanta intensidade que ascendia uma neblina, poeira dos zéfiros.


Desenhastes meu coração quando anunciou “decifra-me...” Acho uma tolice, não sou obrigado a decifrar-te, como se Vieira palestrastes um sermão.  Asneiras. Devora-me? ......................


Duas opções; estrupa-me  ou ejaculo-te.


Já está aqui dentro. Que suco gástrico. É banquete. Asneiras. Por quais Asneiras? Não pergunte. Brás Cubas. Quincas Borba. Queres mendigar? Queres o adultério? ....... Não posso ser Virgília? Não sou Brás.


Abraçamos nossos umbigos, companheiros ternos de eternos. Perdemos metade dele e ele continua conosco, olhe pro seu umbigo, não, não é egoísmo.


Aí, tu vendes almas? Não, vendo flores. Então, aí tu vendes almas. Tenho uma floricultura. Uma cultura de flores? Pareces que não mo entende.  Entendo. Contrario-te. Silêncio? Não preciso o contrariar, teus olhos já o fazem por mim.  Não nego.

Aí está um pouco de Arlequim,  Pierrot, Colombina. São sentimentos, leitor.


Eu poderia matar-te hoje. Não o faz por quê? Não viveria sem teu amor. E sem mim? Tu, cadáver ainda teria amor? Por ti? Responda-me. Rio Lethe acabaria comigo. Esquecer-me-ia? Nasce comigo?


Nasce comigo?


Depois da morte, uma promessa, nasce comigo?
Reencarna no meu corpo? Vou engolindo terras dentro do meu caixão.
Suspeito que nascer e morrer é perfeitamente igual. Não te lembras nada antes da vida, não te lembras nada depois da morte.


O céu está lindo hoje. Escárnio. Uma Fermata. O Universo? A poesia. Ela morre. E como morre. Então? Morre, mas vive. Não entendo. Não me decifras.


A matéria física, sólida, derrama, evapora-se. Posso até pegar o ar com os dedos.


Como tu te chamas? Ambiguidade. Não entendo. Vou-me embora. Já? Espere. Sim? Como te encontro. Não encontra. Adeus? Sempre...

domingo, 19 de dezembro de 2010

Xadrez

                                                            Pelo oxigênio que fere os pulmões.
Jazem doze dias que não escrevo e tudo que eu posso oferecer é um circo de palavras rolantes e extrínsecas e, aquele CD arranhado que repete o pior refrão, como foi meu dia hoje?
É preciso coerência de tema para escrever sobre seus sentimentos? Machucar em nome da arte, isso é válido? Falar sobre morte na literatura não vai te fazer morrer de verdade. Quando se pratica homicídio se morre duas vezes, alma e corpo. Não é um depressivo que vos fala, nem teorias aleatórias de uma  psicologia behaviorista  barata, culpo minha mão que de palhaça tateia cortantes palavras sobre meu corpo. Não se manda nos cinco sentidos, que fique bem claro.
Apago e escrevo apago e escrevo. Uma fermata de dores e delírios, não ficou bom, bom pra quem? Saberia tu analisar os sentimentos alheios? Tu  terias cicatrizante analises? Não discorde comigo leitor, nem sempre discordar o fará ter personalidade, discordas quando teu sentimento ferir o meu, e deixe que eu mesma te ofereça minhas mãos, não há algo mais perigoso e funesto que elas.
Sei que à maioria aqui prefere ouvir de mim contos, contos de penúria ou vezequando de um amor puro e universal. Contos, porque raios-X nenhum detecta enfermidade ou doenças nos ossos, os humanos não aceitam ver pelos próprios olhos suas almas podres, sabonetes são usados para disfarçar o odor do corpo virgem. Vivemos na sociedade do brio, que o amor próprio lubrifica os olhos. Morreremos, pois não sabemos diferenciar problemas cardíacos com os sentimentos de paixão, deixes tu leitor de se apaixonar por seus pés, olhar para o lado é a solução para não morrer atropelado.
Não seria mais fácil se quando quiséssemos entrar em casa, chorássemos, latíssemos, arranhássemos nossas patas na porta de madeira, no entanto fazemos de conta que não importa, o nosso orgulho é um ponto do alfinete. Só se morre de orgulho se você o engolir. Somos tão parecidos com os nômades, somos nômades; chegamos à  um local rico em verdes, natureza suntuosa, lagos imaculados, absorvemos tudo, nos  lambuzamos, e depois? Fugimos e  nos refugiamos em outro local, com outro lago, frutas, peixes e vida. Nunca vamos aprender a cuidar da terra e fixar nossos pés nela. Fomos criados assim, assim vamos criar, ou vamos destruir.
Quantos corpos você já usou para se salvar? Quantas naturezas você sugou, como hirudínea? E quantos bebês você desmamou antes dos dois anos? É que o passado e o presente são interligados sim, braço esquerdo, braço direito, o coração os une, veias os une, não feche seus olhos para isso, leitor.
Estratagemas.

sábado, 20 de novembro de 2010

Por qual não vale um conto.

Contrair emoção, regatar os amores ilimitados de mendigos que veze quando precisam de pão e leite. Vou contraindo minhas unhas dobrando os dedos como se fosse socar alguém com as duas mãos, às veias do pulso com a força que fiz quase pularam para fora, minhas unhas  perfuram a  parte central das minhas mãos, no local que  ficam linhas da vida. Tentei apagar meu destino, molde do destino, o que queira chamar. Fechei minhas pálpebras, meus seios quentes e maternais jorraram leite, leite de um feto abortado, jorrando à  falta da fome. Corri a árdua travessia da porta para o sofá, que me fez relembrar uma navegante na maré vermelha, talvez seja aquelas toxinas liberadas, fico pensando, tudo tende a sangrar, e tudo que sangra existe um  culpado por tal ato. Proliferação, planctônicas. Leite materno. Ciclo embrionário, morto pelo enforcamento de um cordão umbilical.
Morte? Fascínio de escritores, musa da filosofia, falamos de morte, porque amor é limitado. E porque todos nós temos sede de existência, sede de amor passa com água. Sede de vida? Sede de vida não passa, temos medo da morte só depois que ganhamos à vida. Mas, nascemos de morte. Sei que é uma idéia assustadora. Tenho insetos no meu cérebro, gafanhotos e vaga lumes. Sou uma mulher que retorna tragicamente para vida, ou, sou uma mulher substituta, substituo dores de homens pelo fascínio do meu corpo, substituo suas frustrações por anarquismo psicológico, vou me substituindo, condensando, sublimando. Porque como a cobra, depois de certo tempo com o mesmo couro, ela começa a feder.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Abate

     No fim da estrada, sempre nos deparamos com decisões, entre desligar ou não o oxigênio. Viste que a galinha, essa nasceu com o destino entrelaçado  na morte. Viste que a morte, só a morte, é uma maneira de dormir sem ser incomodado.
Já é sandice achar que galinha tem alma, então, não existe nada mais perto da morte que uma galinha.
     A destreza com que ela vai andando pelo “corredor”, as mãos que a sufoca das mesmas delicia-se dela.
Emendando seus pés finos para não tentar voar, outra utopia de galinha.
Cravando-lhe a mão no pescoço, ela se debate, se contorce, late, grunhi, surta e entorpece, zangando-se. O cérebro da galinha, liberando um tipo de endorfina, que não é dor fina, solta a língua para fora. Espírito de sobrevivência. E depois de tantos séculos, burras galinhas não criaram nenhum tipo de aptidão para se salvar da morte.
     Abastada, incompleta, incrédula, servida como mingau.
Já nasce suicida, só por nascer galinha, e como um ser de tal ignorância não tem o conhecimento de sua própria morte.
Joga-se o milho, limpa-se o celeiro, choca-se  ovos, cisca suas dores de galinha apagando a crucificação no terreiro baldio, deita-se com o galo, divide-o com outras marcadas pelo mesmo destino e talvez, chore.
Aniquilação absoluta, primeiro retira a camada de penas, deixando-a nua, porque ela é pura vontade de vida, água quente, borbulhando, joga-se em cima do cadáver, deixando-o limpo, purificando a alma de quem aceitou a bigamia, mutilando-a corte por corte, dividindo os pedaços para serem servidos com ou sem farinha.
   É quase escasso o que se imacula, nem é atrito, talvez os narcóticos neurolépticos salvem-na.


  “Edite, bibite, post mortem nulla voluptas”.



*"Comei, bebei, depois da morte não há prazer".

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Pinhos


De longe vi o verde, plantado como cacto
Esparramei a correr, montagem, fostes uma miragem
Mas o verde  já estava sobre o talo
Comia meu cérebro e fazia pose à margem.

 Doía o verde do Pinho
O Pinho doía de verde.
Talvez  porque a terra é seca
O Pinho doía de sede.


O pinho irritado teima,
Como o vinho teima em ter cor
Vi que debaixo do vinho
Tinha pinho de um leitor.

És Pinhos
Es pinhos
Espinhos.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Glicose



É  de tal ingenuidade  a vontade de escrever do homem, e a minha também, mostrando-se despido e frágil para qualquer um que tenha olhos. Derramando  sobre o leitor uma podridão dos seus segredos pungentes,  fazendo pose, divulgando suas formas encurvas de ser humano, que se ilude com o próprio veneno criado. Que é escravizado, açoitado, assombrado por sua própria vontade de comer letras.

Comecei a escrever tão depressa que talvez meus pensamentos não consigam acompanhar minhas cartas. Minha caligrafia está feia quase ilegível, eu estou defronte a uma vela que ilumina o papel deixando-o de uma cor amarelada, estou vazia de uma forma como se tivesse provocado todos os órgãos do meu corpo, não sei como, estou viva. Viva?Talvez só esteja dormente, estou dormente, todo meu corpo, junto com minha alma. A vela está derretendo como se estivesse chorando, as lágrimas dela queimam, queimam por determinados segundos, depois solidificam na pele e gruda, é uma dor confortável  que dura pouco tempo, eu poderia passar minha vida pingando lágrimas de vela sobre  meu corpo. Está tudo escuro e eu peço baixo para poder me camuflar no bruno dessa noite, agora meu ser submete-se a uma presença estranha. Talvez ele não me veja no escuro, e vá embora levando suas dores que não são poucas e ele insiste em  mostrar, em cavar isso em minhas córneas, como uma aplicação de anestesia. Eu fico zonza e ele pode deleitar-se do meu sangue, sendo único alimento que o satisfaz, e de tantas vezes ao dia o deixei saciar, que acabei ficando anêmica.  Meu sangue agora é tão escasso que em sua próxima refeição me levará ao túmulo.
    Eu que por muitas vezes pertenci à hecatombe, e suicidei-me, hoje sou covarde e venero minha covardia como um gótico veneraria o sepulcro. Tenho granitos espalhados por toda minha alcova e não posso mexer-me muito, mumificação e os esparadrapos talvez cubra minhas feridas abertas, que não conhecem o termo “cicatrizar”. Leio pequenos versículos dos meus pensamentos, pois ao contrário de outros,  meus pensamentos não são feitos de imagens e sim de letras, elas voejam e embaralham-se e eu fico decifrando, não como um caça palavra, porque é  à palavra que me caça. Vejo às letras e nelas aparecem  hematomas, não entendo, franzo minhas sobrancelhas, mas continuo sem entender. Talvez esteja sonhando, belisco-me, não sinto, agora parece mais confuso, estou dormindo?Acorde, acorde, nada, passo as unhas fortemente pela minha epiderme, continuo sem sentir, lembro-me que estou dormente, minha alma e meu corpo que é minha carne, então comecei a contorcer meu esqueleto tentando fazer com que um osso quebre, não sinto, não sinto, quem foi o assassino?Não, não eu estou viva. E vejo, é hexágono, hexágono de 32 lados. Acordei.  Agora pareço realmente sonhando, estou em um bloco de carnaval e às pessoas gritam e jogam confetes, algumas tropicam ,jogam seus ombros contra os meus. O som ecoa por toda parte, ecoa por todos os corpos, e todos cantam uma música diferente. Eu tenho a leve sensação de hibernar, não sei como, mas é essa a sensação que estou sentindo, uma era glacial e os sorrisos começam a congelar-se, à mulata que requebrava os quadris, cessa em uma posição de estátua grega, e o homem do pandeiro ao seu lado. E tudo se torna hirto, uma desordem imóvel. E quando alguém vem me tocar, eu acordo e  grito. Acho que acordei todo mundo, verifico e vejo que estão todos dormindo, talvez tenha gritado no sonho e acordei com o barulho do próprio. Nada que esteja sendo lido e escrito nesse momento vai  ter sentido, pois é difícil saber se ainda estou no pesadelo, não sei se o que estou escrevendo vai virar concreto, ou amanhã vou procurar esse papel e descobrir minhas letras fantasiosas, que tudo não passou de um sonho. É uma sensação de está  abortando seu próprio corpo. De que nada te pertencesse, ou de que tudo passa a te pertencer, você fica lubrificado e começa a se debater em uma sala branca.
E meu devaneio é ser. Então, quero por essa noite tomar posse do meu cordão umbilical, quero à  graça de ser um embrião, de ser carregada na barriga de alguém. De poder chutar quando tenho vontade, e receber um carinho por isso, e que a pessoa sorria porque é um sinal de vida. Quero esperar o alimento chegar depois de mastigado para que eu não engasgue. Espero alguém que me ame sem conhecer meu rosto, que se sinta feliz quando eu a fizer enjoar e vomitar 3 vezes ao dia, e que não reclame disso mais uma vez, e  se sinta feliz. Quero ser esperado pelo leite que me alimentará durante três anos e que eu possa sentir-me íntima dos seus seios, até que comece andar sozinha. E quando eu  estiver já sendo um incomodo que aconteça o parto, mas que com isso ela não me tire da sua vida, mas só exista à separação da barriga.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Navegar poesias



És minha
Vontade de rimar
Rimo tráfego aéreo
Com tempestades em alto mar.


Feudo

    Cuidar do corpo nunca foi tão preciso e precioso, amontoamos perfumes franceses e esquecemos-nos de banhar diariamente nossas almas. Importamos maquiagens e como reboco cimentado desenhamos sorrisos de 24 horas e escondemos a idade.

Criamos deformidades!

     Malhamos até ficar com o corpo esculpido criando montanhas nos braços. Esquecemos de colocar nosso cérebro em uma esteira.
            Um corpo esculpido um cérebro entupido.

As modelos que passam na passarela não vendem só a roupa da grife italiana, vendem remédios, inibidores de fome e shakes diets, desfilam com seus vestidos em forma de comprimidos, última moda na UTI.
 
    Comparar um garoto pobre do Zimbábue, e uma garota rica de Milão. Os dois pesam o mesmo. Só que uma vomita. E outro come o vomito do chão.

Nunca foi tão difícil distinguir um nariz que respira de um  que “aspira”. E nunca foi tão fácil concordar com a corda que vai nos enforcar.

                  Temos escravizado nosso corpo para garantir uma silhueta no fim do dia.
Corrigimos falhas de ter nascido humanos, porque essas só são aceitas no caráter, falhas no corpo o espelho reflete.
              E no final reverenciamos o nosso Senhor bisturi de cada dia que nos tira hoje.

sábado, 18 de setembro de 2010

Cantiga de despindo-se.





Eis cá meu arlequim
Devoravas pétalas do meu jasmim

Foi-se embora cantando aos prantos
Eu,regozijando,regozijando.

Da tua pele senti  o sabor do amor
E quando me tocava ao corpo fervia a vapor.

Da minh’alma tu te alimentaste
Agora cospes, e pede-me chaves.

Tu que dormias sobre meu corpo nu
Cegara teus olhos aquele belo mar azul?

Meu broto arlequim
Porque disseras que morrias por mim?

Cá eu ébria pelo vinho teu
Agora vivo sóbria, faço-me ateu.

Meus lábios que dantes eram molhados
Vivem cá agora em sertões castigados.

    Aflita, fiz gestos que parecem gritos
E o que voltou foi o eco da minha voz, maldito.

O hálito da sua boca ainda esquenta minhas veias
Como os pés no inverno, precisam daquelas meias.


Nos seus cabelos, estou trançada
Calve-se, e eu seguirei estrada.


Este peito que se acendia
Hoje vive a uma vela vadia


Não se lembras do meu vestido vermelho?
Que tu nas noites, despia ao desespero


Da gargalhada
Fez-se pranto.
Do teu amor
Um canto.
Das marcas
Cascas.
Das asas
Harpas.

Eu fui perguntar para os bêbados na rua
Onde estarão tuas doces formas cruas?


Quem sabe à noite
O tronco não tenha açoite.


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sem verba


    Veja!Extra!Caras!Grita o menino com o jornal na mão, vendendo informação com a barriga seca de pão. As pessoas que passam, já não sabem ler, e mesmo que soubessem não perderiam seu tempo, lindo, tempo. Não existe tempo para ler nem para escrever, como está seu tempo?
"Nublado". E por falar em chuva, vou pegar minhas roupas no varal. Na volta com as roupas na mão, vi que o sol já estava voltando. Quem sabe se eu lesse o jornal...
Olhando tudo em minha volta,vi,veja a organização construída sobre o alicerce da monstruosa desordem. Veja o relógio.
Tic-tac. Tic-toc.
Faz seu trabalho. Não pode parar. Então o homem cria à bateria, para a bateria.
Servos ao relógio. Quem falou que à ditadura acabou?
Vamos lá, cronometrados para sermos felizes.
Teoria do caos?Da relatividade?Não, essa é a teoria dos ponteiros.
Donde o maior domina o menor, e os segundos pintam a cara protestando.
24, vinte e quatro horas, para sentir o orgasmo fervilhar as veias e depois viramos e dormimos.
8 horas é o ideal, dizem os “espécie-a-listas”, oito horas nos dão para recarregar as frustrações de soldados em guerra civil, ou quem sabe tudo isso não passa de um canil. E para um bom sonhador oito horas não bastam.
06h00minhocas. Alarme grita, sorriso é alegria.
Ao acordar, viramos espermatozóides killers, e tudo se relaciona em fecundar um óvulo, correr, correr, fecundar. E se algo der errado?Estima-se que 60% da população sofrem de aborto espontâneo.


   Repetir o inquérito, reformar a casa, redesenhar a fossa.


   E quem sabe uma autogamia, reviver, viver, ver, vi. Não, cegos por uma poluição já não se vê mais nada. Só que o Sir. Hipocre dizia: que prefere se hospedar na UTI(Unidade de temor indeterminável)a viver na epidemia de cegueira. E quem sabe o veterinário, (médico)venha visitá-lo hoje.
A bolsa caiu. Cuidado com o ladrão. Vamos comprar!Comprar!O mercado de 24 horas está aberto. Que coincidência. Nua, pousando a moscas e com a validade violada tem algo que nos chama atenção, o presunto chama-se verdade porque “saúde” este já existe. Nós compramos e depois revendemos com 50% de desconto, parcelamos a felicidade em 12 meses, porque dívida é felicidade. Então, que ela possa durar 2 semestres.
Somos orientados a vencer em uma disputa de anônimos. Ou, você sabe quem está sentado à sua direita?
      É nessa arraia-miúda que criamos nossas proles, que se tornarão grandes ateus, a seus, não a nossos.Vou servir meu chá das quatro e comemorar o bélico perdido.
Porque “faça amor não faça guerra”. Oh, Marcuse eles não sabem o que fazem.
Desculpa, não ressuscitarei no terceiro dia.

domingo, 5 de setembro de 2010

Eva



Gosto de maça carmesim
De um lírio branco cai à cor do crucificado
De joelhos pedes perdão defronte ao calvário.

      A mulher grita
     És pecadora
    És adúltera
    És expulsa
    És mulher.

Na carne cicatrizes de desejos reprovados
Camuflam-se em bruma alma
Cale-se, perante teu Deus!
Ajoelhe-se, defronte ao Diabo.
E o ventre jorra sangue
O sangue do suicídio
Entre o cárcere do jardim florido.
Pecas, para sentir o sabor da faca enfiada ao espasmo.


   És mulher sem ventre
   És sem alma
  És fujona
  Escrava.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Passos do Sertão

No sertão os pés descalços, pisam
No chão quente.
Pobre coração
Pulsa frio.
O lampião dá-se    
Adeus.
O cavaco chora.
Em comboio, chora.   
A mulher segurando no peito
Esperando o coração acalentar.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O tráfego da rosa


       Marchais pelados como os anjos faziam, na época em que  suas asas ainda eram brancas, pois não existia a tal da poluição. Voltastes a me ver como um erro acrobático, como um pôr-do-sol ao  meio dia. E essa lua que hoje canta, de mim só se ouve os berros, talvez se tu foste um maestro lua, eu poderia ouvistes. E por que berras para mim?Não posso olhar-te defronte, pois é insuportável ver-te como uma amante. Lua, explica-me como consegue ser tinhosa, não tem vergonha de mostra-se para todos?De ser dada aos amantes, de ser cobiçada pelos sonhadores?

      Lua faz-se cheia, viçosa, para os homens. Minguante para as mulheres enfeitadas de amor. Crescente para os casais gozando em um quarto, ou à espreita da janela. A nova é o parto, envolvida em um cordão umbilical, fazendo-a  choramingar, esperando pelo leite materno.
      Quem é você lua?Por que se faz, refaz, desfaz?Não sabes que de ti que tenho medo, e tu atrevendo-se camuflar não me resta mais nada  do que temer olhar para ti.

      Então me veja como uma flor perdida, ou quem sabe você me acha, leitor. Não trafegue por entre às roseiras da espécie que é minha flor, pois tu podes encontrar tempestades, e eu não moverei minhas pétalas para te salvar. Não espere seu barco naufragar para sair do bote, essas águas que me regam, falsas, matam-me mais um amante.

   E nessas idas e vindas das navegações, perdeu-se uma flor sem cor, não era branca, era incolor. Joguem essas âncoras parem esse navio, a rosa que era acromática fugiu. E capitão do navio grita: ”Procurem à rosa, se achar 20 vinténs vou dar”.

     Vasculharam o navio, e nada da flor, os homens negros, escravos, buscavam pela rosa. Como cachorros famintos buscavam por comida. Gritavam, e jogaram os barris de vinho, reviravam os quartos, e nada daquela flor. Alguns se jogavam do navio, e caiam no mar. Congelados, morriam com seus lábios tremidos, e suas mãos enrugadas, até o sangue fazer-se sólido, criando um cemitério em alto mar. O mar tomava-se outra cor. Os cadáveres negros, banhados, bailavam  com o andar das ondas. E os corpos desciam ao fundo do oceano.
 O Capitão desesperado tornou a gritar: ”Quem achar à flor, vou alforriar”.   
         E os negros desesperados, tropeçaram-se uns nos outros, e a arruaça estava feita. Confundiram-se uma flor roxa com a flor procurada, e guerrearam como animais selvagens, alguns estavam no chão, outros incansáveis ainda juravam ter visto à flor na navegação. E os bramidos dos negros com passar dos tempos, tornavam-se mais forte. Criavam alianças, comparsas, e inimigos de longa data, acusações eram feitas, cúmplices eram “traídos”. E nada da rosa ser encontrada. À noite já aparecia, e os negros detetives, cansados, mortos da batalha se rendendo, sem esperanças.

       E foi então que um deles viu: A rosa pegava um bote, a caminho para o Brasil.  

sábado, 14 de agosto de 2010

Onde foi parar o título?


Estou dispersa, frígida, e não consigo fazer com que essas palavras soem sentido. Não, elas não soaram, pois elas já não têm vozes, camuflam-se  diante uma escuridão que meu corpo emite.
Vejo-me diante de poluição de pessoas, donde esse lixo não inorgânico e não reciclável é jogado na frente de minha janela. Essa imundice de lixo humano do qual já não existe coleta, abarrotara minha casa, me deixando com todos os destroços que compõe essa sujidade.
Eu, engolindo esse ar poluído, esse ambiente detestável, essa lagoa que de longe se vê os corpos que  assemelham  a urubus debelados. Urubus espírito do lixão humano.
Não culpo esses humanos, culpa minha também, deixo-me sujar de suas poluições, e gosto, sinto que fazendo isso me aproximo do que chamo de “escape humano”.

Fico febril.

 Essa contorção do meu corpo quando estou me afundando em um oceano negro, deveria ser explicada pela medicina. Fico eu  e meu corpo contorcido, nenhuma explicação. E o joelho que fica perto coração sentindo a pulsação cada vez mais mórbida, são os braços que na mesma posição, segura os pés para que eles não possam fugir daquele lugar enfermo do qual você se encontra. Você se encurta para que a dor  possa se encurta junto com seu corpo. Essa é a posição do feto.

Deite-me em cima de espinhos para que a dor passe a ser física, e para que no corredor do hospital eu possa-me sentir segura, sabendo que lá alguém cuidara de minhas feridas. Onde me servirão  uma sopa quente.

Isso acontecerá freqüentemente, sinto que boa parte de mim, se foi. A boa parte de mim se foi. Essas orações, que é assim que chamo todas essas coisas que de mim saem, elas compunham-se de um vestido vermelho, mofado e rasgado, de dama confessa na igreja. Padre onde você está?Preciso hoje confessar-me. Cometi,e se não cometi,cometerei o pior adultério, estou traindo a mim mesma. Engano-me, e olho para o espelho com ar de cafajeste, não peço perdão por meus atos, muito menos pelo adultério, nem é para pedir perdão que estou aqui. Não sei por que estou. Só estou.

Sinal da cruz.

Amém.

Tenho que partir. E o caminho é longo. Deixe minhas palavras assim, sem começo nem fim, pois são palavras, não precisam de sentido para existir, elas só existem.

Amém...

domingo, 8 de agosto de 2010

Smoking



Entre tardes e uma neblina de longe branca de perto negra.
Amantes em um quarto dormem não se arrependem crédulos de um gozo quase uivante, então fazem do cobertor seu álibi do ato obsceno. Os corpos já frígidos camuflavam-se entre as latitudes de pensamentos indigestos. 


O suor ainda estridente,falava,gritava como se pudesse confessar o adultério. E as palavras saíam candentes na forma de água que se ferve a lenha. Então enquanto sentia-se a brasa queimar-los a cama de madeira, febris, podiam tocar a última faísca daquele fogo de outrora.


Desnuda,  seu corpo de pequeno porte ladrilhava cicatrizes de atos ferozes, e noites com gosto de ébrio. Seus lábios rigidamente bem desenhados ainda sentiam o sabor do vinho que descia sobre o deleite de uma chaminé eufórica. Sentia-se evaporar todo pecado omitido, as maças vermelhavam todas as mobilhas do quarto. E os escombros rangiam em pós-gozo.


Ele tinha os braços esculpidos e fortes. Fazia leitura do corpo da mulher deitada à sua direita. Ele escrevia como um poeta e não manuseava lápis, cravava as palavras no corpo que pulsava sangue, no corpo de sua amante. E nada do que estava escrito poderia ser apagado, ou reescrito, era poesia eterna, que o autor era personagem de parágrafos maus descritos, era à ida da poesia sem volta, consumada. Sabendo que suas escritas ganharam vida própria, viu-se  a titubear no sono.
Viam-se as cinzas que consumiam seus  corpos, a neblina já desaparecia, e já se sentia o aroma do café filtrado no vizinho.

Acordados, defronte um ao outro, olho negro olho claro, mas o mesmo olhar de pecado. Ele ainda mostrou um breve canto de sorriso, satisfeito. Ela tinha um olhar longe aquele que ele ditou certa vez como: ”Esse seu olhar é longe do tipo que me atravessa alma”. Ainda deu para escutar o nó desfazendo-se  na garganta dela. Se dissesses que o amava poderia perdê-lo.

 -Veja só onde fui parar. Ela declamou.
 -Veja onde estamos,ele respondeu,vestindo-se um Smoking azul marinho. Fechando a porta.
 -Vai ficar tudo bem?
-Sim, bem, tudo bem.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Ao som de um último acorde.



“Música, o que é música além de um arranjo? De um violão bem afinado, e um maestro regendo uma orquestra”?
“E o que é o som, se não uma freqüência medida em decibéis”?
Essas frases usadas por alguns de meus amigos reforçaram o meu íntimo motivo de escrever, sobre música e da forma ambígua que ela age sobre o meu corpo, meu espírito, sobre o externo, que acabaria por vez, se tornando interno.

“O que diferencia  música de um som? O ouvinte”.

Enquanto entrava em um restaurante, escutei várias vozes, agudas, graves, finas, de homens, mulheres, e crianças. O barulho fazia-se mais forte enquanto me aproximava da mesa onde sentaria, eu tentava identificar de onde saía cada som, impossível. No começo as vozes mais graves chegavam primeiro aos meus ouvidos, depois as risadas estridentes, e no fundo,como se fosse o fundo de uma tela na qual a paisagem seria o segundo plano,vozes tímidas, quase instáveis. E se não fosse um som para ser “apreciado” de maneira individual?Parei, como se por dois segundos pudesse silenciar todos. Comecei a notar às vozes de forma coletiva. De fato o barulho era perturbador, era como se o quadro por um instante ganhasse todos os tipos de paisagens nos fundos da tela.
E depois de certo tempo, vi que o som começava  a agrupar-se. Tanto que agora eu era que estava no segundo plano da tela.

“Sou um homem que faz música com o cérebro”.

Pensei certa vez como uma pessoa que sofre de afasia consegue compor?Como a música age com relação ao cérebro, e nossos sentidos?A pergunta é: A música é capaz de mudar nossos sentidos sensoriais?Se me dissessem que sim, diria: Então a use com pessoas que sofrem de amnésia.
Interromperei, para a passagem de um texto.
Estava eu e o porto, o mar e o céu que contrastavam da mesma cor, azul marinho. Notei que olhando para o mar e para o céu não conseguiria distinguir-los, só viria um breu, tudo era escuro fazendo alusão para o nada, tanto que eles pareciam um só. Eu não entendia como uma pessoa passara seu tempo olhando para aquela dimensão. A visão naquele momento era falha. E por um instante fechando os olhos, comecei a ter a primeira percepção de onde se encontrava o mar, podendo finalmente separá-lo através do som. A onda que tinha timbre forte crescente, enquanto batia na ponte fazia tremer, titubear, e as minhas pernas logo ganharam o compasso emitido pelo tom, através da vibração que a onda causava.

“A música vai dando movimento ao corpo, o corpo vai virando música”.

“Feche seus  olhos, veja com seus ouvidos”.

Na noite distinguimos imagens através dos sons. Um choro de um bebê, um barulho de gato, um pingo de chuva, todas as coisas que não conseguimos ver, ouvimos conscientes ou inconscientes, e isso também se torna música. Quando a rua está vazia, não necessariamente precisamos ver, mas teríamos que ouvir, para saber quem vem, ou o que vem.

 “Um breve silêncio: Música”.

Os passarinhos dessa vez não cantaram. A chuva não fez o barulho que eu esperei. As palavras já não eram satisfatórias. Restou-me um breve silêncio, e um pequeno acorde musical.


"O homem cria música, o homem escuta sua criação, o homem se torna cria-tura."